Se Tudo é Força, não treino Resistência?

Parte da resistência ao conceito “Tudo é Força” que sentimos nas nossas formações e conversas com outros treinadores/preparadores físicos, deve-se ao facto de imediatamente estes treinadores e preparadores físicos inferirem que somos contra a capacidade condicional “Resistência”. Questões como “Se é assim como é que conseguimos fazer um jogo completo? E se não temos “resistência” como é que conseguimos fazer o último sprint do jogo e garantir uma situação isolada frente ao guarda redes? Ou um contra ataque de 1×0 em Basquetebol? É sobre este tema que vos vamos falar hoje.

“La Vecchia Signora Resistenza”

Numa análise geral ás matrizes fisiológicas de modalidades como o Basquetebol, Andebol ou Futebol –  tendo presente as diferentes dimensões do campo, a modalidade em si assim como as posições específicas de cada jogador – depressa percebemos através dos gráficos que, a maior parte do tempo de atividade é feita em regimes de corrida e deslocamentos lentos (o gráfico que apresentamos é da modalidade de Futebol, um estudo realizado na Premier League (podem, numa rápida pesquisa na internet,  encontrar vários exemplos). Através desta evidência, instalou-se a ideia que estas modalidades eram modalidades de “Resistência”.

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No entanto, ainda que ao analisarmos o gráfico esta ideia parece ter lógica, ao observarmos o jogo em si e se estivermos atentos às ações que permitem o atleta ganhar um ressalto, chegar à bola primeiro que o adversário etc, ações estas que na verdade podem definir quem ganha o jogo, vemos que elas estão espelhadas no gráfico numa percentagem muito inferior às ações lentas parecendo reforçar a ideia da importância da “Resistência”. Mas quais são os regimes energéticos em que estas ações se dão? E que tipo de ações são estas? Já em 1991 Bosco conclui que o VO2Max não é o factor mais importante no rendimento de atletas dos Desportos Coletivos avançando ainda que nos nestes desportos, as qualidades fisiológicas fundamentais são as capacidades neuromusculares.

Paralelamente, seria fácil inferir que em provas como  por exemplo os 3000m, o factor “Resistência”, e todos os marcadores fisiológicos com maior associação a este factor, é aquele que fará maior diferença. Vemos na verdade que os tempos nos 3000m têm vindo a reduzir mas não são acompanhados com melhorias nos valores de VO2Max dos atletas – por exemplo o volume sistólico tem um plateuau em que não melhora mais independentemente do treino podendo até ver-se reduzido (ver gráfico) – antes, as melhores marcas que agora assistimos nestas provas estão relacionadas com uma maior economia de corrida que está ligada a uma maior eficiência do músculo esquelético. E olhando ao princípio da especificidade como é que melhoramos a eficiência do músculo esquelético?

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Olhar sobre uma nova perspetiva

E eis que chegamos de novo ao mantra “Tudo é Força” e, as outras capacidades que conhecemos até aqui com uma identidade própria são na verdade, e na nossa perspetiva, apenas uma forma de expressão de Força (para maior esclarecimento ler aqui o artigo “Tudo é Força”).

Nos últimos tempos, o treino da Força tem vindo a conseguir mais adeptos e a conseguir uma maior importância no dia a dia do treino dos atletas e equipas. Cada vez mais os treinadores e os próprios atletas estão mais sensíveis a estes tipo de treino muito devido ao aumento exponencial de estudos, de informação e divulgação deste tipo de treino.

É verdade que existem uma infindável lista de métodos de treino da Força, mas como vamos dizendo, e ficará mais claro para breve no lançamento dos nossos cursos sobre Preparação Física, nem todos os caminhos nos levam a Roma. Este facto, aliado aos ainda mitos instalados nos treinadores sobre o Treino da Força, podem limitar a abertura para este tipo de treino nas diferentes modalidades onde ainda impera a lógica da “La Vecchia Signora Resistenza” no entanto é um caminho que temos de percorrer, e já vamos atrasados no plano internacional.

A especificidade da expressão de força “Resistência” e como a potenciar

Se treinas bem a tua modalidade então não tens de te preocupar se os teus atletas conseguem realizar um jogo ou não – eles vão conseguir e isto é garantido pelo princípio da especificidade e da sobrecarga do treino. – mantendo o exemplo em cima do Futebol, alguém acredita que um atleta, que tem um período de offseason de 4 a 6 semanas e anos de prática daquela modalidade não tem, ao fim da primeira semana de treinos da nova época, capacidade para fazer um jogo? – No entanto, esta forma de treinar acarreta no entanto riscos acrescidos quer na gestão da forma desportiva da equipa/atleta quer na gestão de lesões ou o risco de lesões – não é possível viver exclusivamente da especificidade (como apregoam os, cada vez menos, defensores da Periodização Tática).

Por outro lado uma coisa é sermos capazes de realizar um jogo outra coisa é potenciarmos as nossas performances no jogo.

E será a potenciação conseguida através de mais exercícios de especificidade? Acreditamos que não. E as novas prestações atléticas que agora assistimos em praticamente todas as modalidades também nos mostram claramente que não. É através do Treino da Força e do treino da capacidade de expressarmos a Força durante um determinado tempo específico. É caso para dizer “Use the Force

 

Até daqui a uma semana!