O Aquecimento – 1ª parte

Para todos é clara a importância do aquecimento para nos prepararmos para a atividade física que vamos fazer a seguir com mais intensidade. Porque está tão enraizada a sua prática, pela evidência que tem, não nos questionamos muito sobre algumas subtilezas que o aquecimento apresenta. Por exemplo, somos rápidos a afirmar que se os nossos atletas estão a suar é porque estão prontos para o treino, mas será mesmo? Estarão menos,  propensos para lesões a partir do momento que estão a suar? Todos queremos que os nossos atletas estejam cheios de energia para o treino quando este começa mas será que o nosso aquecimento deixa “intacta” a energia e disponibilidade ou esgota, em determinada magnitude, essa disponibilidade? É sobre isto que vamos escrever hoje.

Porque aquecemos

O Aquecimento é a estratégia que o preparador físico/treinador usa para que o(s) atleta(s) passem de um estado de repouso para um estado de “trabalho”. Este entrar em estado permite então que o atleta se prepare psicologicamente e fisiologicamente para a atividade que irá realizar.

Pretende-se por isso com o aquecimento criar um estado de condições ótimas para a atividade a seguir, organizando um conjunto de exercícios numa determinada sequência que permita melhorar a performance do atleta reduzindo ao mesmo tempo o risco de lesões.

No parágrafo anterior logo no seu início, está presente uma das subtilezas que podemos encontrar no aquecimento – “um estado de condições ótimas”

Aparentemente nada de novo mas nós fazemos aqui uma questão, o que é um estado de condições ótimas? 

estar preparado para o treino/competição

Sempre que falamos de aquecimento, normalmente em contexto de formação, embora procuremos passar também aos nossos atletas a nossa filosofia, procuramos deixar claro o seguinte: para nós, após o aquecimento, o atleta tem de estar a 100% das suas capacidades e pronto para mostrar estes 100% desde o “momento zero”. E para nós, este é o estado de condições ótimas. Mas para isso, temos também que assegurar que, ao preparar o atleta para o treino/competição do ponto de vista fisiológico e psíquico, consigamos manter as suas reservas energéticas “intactas” para desta forma não limitarmos as suas performances. 

Por outro lado, outra questão que procuramos esclarecer junto dos nossos formandos e atletas é que a temperatura corporal central não é o mesmo que a temperatura muscular sendo esta última a mais importante de todas para conseguirmos entrar no estado de condições ótimas. Naturalmente que a temperatura corporal central é importante e é foco também na nossa filosofia de aquecimento embora o nosso foco seja afetar de forma positiva e direta primeiro a temperatura muscular e só depois a central, que muitas vezes aumenta como consequência da primeira e portanto de forma indireta.

Temos então que, para nós, os objetivos do aquecimento serão:

  • prevenção de lesões
  • preparação para e potenciação de performances
  • preparação técnica (não vamos explorar neste artigo)
  • preparação psicológica (não vamos explorar neste artigo)

E acrescentamos o foco de, ao procurarmos atingir estes objetivos, preservar ao máximo as reservas energéticas no atleta.

As questões de sempre

Naturalmente que para atingirmos estes objetivos e pressupostos a sequência de exercícios escolhida deverá ser o mais otimizada possível e respeitar os seguintes princípios: i) individualidade; adaptação à modalidade/atividade e; respeitar determinadas etapas.

E normalmente quando o tema chega à escolha dos exercícios chegam as questões de sempre: devemos correr para aquecer? Devemos fazer alongamentos? Mexer as articulações?….E aqui vamos nós.

Devemos correr para aquecer? Aqui estão as principais linhas de desvantagem e vantagem sobre o “correr para aquecer”.

  • Desvantagens
    • diminuição da produção de Força
    • diminuição da “Velocidade” (se querem perceber porque está entre aspas leiam este artigo)
    • diminuição da capacidade de reação – devido à fadiga central que está potenciada com o uso da corrida
    • estimulação dos isquiotibiais praticamente inexistente – o que afeta o objetivo de prevenção de lesões
  • Vantagens
    • ativação do sistema cardiovascular

Para nós, a utilização da corrida, da forma que é usual usar-se para o aquecimento dos atletas não tem qualquer utilidade, nos desportos de caráter explosivo como são a maior parte dos desportos coletivos, ainda que tenhamos de procurar ir de encontro à sua vantagem.

Devemos fazer alongamentos no aquecimento? Claro que aqui há muito a falar sobre o que é alongamento etc. Para o efeito deste artigo, vamos falar dos alongamentos que ainda são vistos por todo o país a serem utilizados no aquecimento. Seguimos a mesma lógica de apresentar as desvantagens e vantagens.

  • Desvantagens
    • diminuição da produção de Força
    • diminuição da “Velocidade”
    • diminuição da capacidade de reação
    • efeito analgésico – diminui a sensibilidade à dor “adormecendo” um mecanismo de prevenção de lesão
    • e por isso, aumento do risco de lesão
    • interrupção da irrigação sanguínea 
    • e portanto afeta negativamente o aumento da temperatura muscular
  • Vantagens
    • nenhuma

Devemos “mexer” as articulações? vantagens e desvantagens

  • Desvantagens:
    • não promovem a vascularização
    • pela sua natureza podemos considerar serem gestos inseguros – muitas vezes levamos as articulações a fazer movimentos anti natura para as suas funções e isoladas do seu contexto (complexos miotendinosos e cadeias neurocinéticas)
  • Vantagens:
    • Aspetos psicológicos

Ao apresentarmos aqui as vantagens deste tipo de exercício como vantagens no aspeto psicológico, queremos referir duas coisas. A primeira é o facto de não haver vantagens no uso destes exercícios para os objetivos e pressupostos que defendemos no entanto vemos que os atletas “gostam”, o que nos leva ao segundo aspeto a referir – os atletas “gostam” pois por um lado está enraizado na cultura vigente sobre o que fazer no aquecimento mas também porque ninguém lhes dá nenhuma alternativa na qual eles se sentem melhores. Experimentem e vão ver que progressivamente, e facilmente, eles se esquecem dos movimentos articulares.

Com esta abordagem sobre o aspeto psicológico poderão neste momento estar a pensar o mesmo para os alongamentos. Verdade, no entanto nós não o incluímos de forma consciente. Os riscos são demasiado altos para incluir o aspeto psicológico como vantagem.

o que fazemos então?

A questão que se impõe é então o que fazemos para ajudar os nossos atletas/equipas a entrar num estado de condição ótima para as suas performances. E a resposta fica para a semana.

Até lá